O Programa de Estimulação Cognitiva MentHA - Mental Health and Aging - “MentHA-COG”, desenvolvido no âmbito das intervenções não farmacológicas, e assente nos pressupostos anteriores, é dirigido a pessoas com e sem patologia mental prévia (doença ou deficiência) que apresentam comprometimento neuropsicológico e/ou demência.
O programa MentHA foi desenhado em 2018 por um grupo de investigadores especializados na área da saúde mental e do envelhecimento, com base no Programa de Psicoestimulação Integral (Boada y Tárraga, 1990) dedicado, originalmente, a pessoas com demência e, em particular, a pessoas com Doença de Alzheimer.
Nesta adaptapção foram selecionados um conjunto de actividades devidamente planificadas, coordenadas e avaliadas, através das quais se pretende reabilitar o funcionamento neuropsicológico das pessoas com e sem patologia mental prévia - i.e. repor ao nível prévio ou ao nível máximo possível - por forma a reduzir o impacto da doença ou incapacidade e criar mudanças funcionais na vida do indivíduo.
O conjunto de resposta às indicações e às necessidades identificadas, através do Protocolo de Avaliação MentHA, visam os seguintes domínios: (i) neurocognitivo (atenção complexa, função executiva, aprendizagem e memória linguagem perceptivomotor e a cognição social), (i) emocional (ansiedade, depressão), (iii) funcional (actividades básicas e instrumentais de vida diária) e (iv) comportamental (sintomatologia psicopatológica).
A aplicação pressupõe a estimulação através da dinamização de tarefas que incidem sobre a funcionalidade cognitiva e social, contemplando elementos sociais e atividades cognitivas globais. Contudo, ao contrário dos tradicionais programas de estimulação, o Programa MentHA integra também o treino de funções cognitivas específicas.
Esta vertente de treino compreende a prática repetida e orientada para atividades problema, através de testes padronizados, que reflectem domínios cognitivos específico (memória, atenção ou resolução de problemas). A prática orientada supõem ainda o treino adaptativo, em que a dificuldade da tarefa se baseia no nível de desempenho individual - i.e. ajuste da dificuldade da tarefa em resposta a mudanças no nível de desempenho.
Programa “MentHA-COG” contempla 14 sessões de estimulação cognitiva, desenvolvidas bi-semanalmente. Estando prevista a aplicação de várias series de manutenção. As sessões, com uma duração aproximada de 90 minutos, são divididas em três fases: social (recepção dos participantes), intervenção e encerramento.
Ao longo do programa são dinamizadas tarefas de grupo e individuais, nos quais se estimulam e exercitam as seguintes áreas cognitivas: Atenção, Orientação, Memória, Linguagem, Gnosia, Praxia e Funções Executivas. Todos os participantes são convidados e realizar as mesmas atividades, com diferentes níveis de dificuldade (A e B) e de forma adaptada ao nível de desempenho individual.
O grupo de intervenção deverá ter um mínimo de quatro e máximo de seis participantes, acompanhados por um profissional de referência (i.e. adequado às características do grupo) que apoiará o facilitador responsável.
O programa é implementado e supervisionado por técnicos especialista com formação na área da saúde mental e do envelhecimento, com domínio das técnicas de dinâmicas de grupo e focados nas especificidades dos diferentes destinatários (“intervenção centrada na pessoa”).
Para cada sessão existe um conjunto de materiais específicos, em formato físico e digital (ex. mesa, cadeiras, quadro interativo para projeção de imagem, vídeo e áudio; caderno de exercícios, lápis, esferográficas, maquina fotográfica, objectos quotidianos, etc.), previamente adaptados e apresentados no decorrer da descrição/apresentação das tarefas .
A dinamização do Programa poderá ser realizada em contexto presencial ou remoto, prevendo-se para o efeito respeitar/preservar a autonomia do participante (capacidade de decisão), as condições de acessibilidade e as condições de aplicação (ex. sala com adequada luminosidade, sonorização e conforto térmico).
Ao longo do programa, o facilitador responsável terá a seu cargo a responsabilidade de registar regularmente, na “Grelha de Avaliação da Sessão”, as seguintes informações: Presenças e modelo de participação (presencial ou remoto)
Avaliação dos Participantes: Interesse, Comunicação, Satisfação, Humor, Eficácia relacional entre facilitador-participante;
Avaliação da Sessão (Planificação de conteúdos, Adequação de conteúdos, duração e materiais, Qualidade técnica ao nível do domínio da sessão, necessidade de treino de competências, Apreciação global.
Para além desta avaliação regular, será feita uma avaliação intercalar (sessões 7 e 14) do comportamento dos participantes ao nível da participação, prazer, relação com os outros, desagrado e rejeição, através da aplicação da Non pharmacological therapy experience sacale (Muniz et al., 2011, Alves, 2013)
A orientação é a capacidade de situar-se quanto a si mesmo e ao meio ambiente, caracteriza-se por:
A Orientação temporal avalia se a pessoa sabe o momento cronológico, a hora do dia; se é manhã, tarde ou noite; o dia da semana, do mês, o mês do ano, a estação do ano e o ano. Exige a integração de estímulos ambientais de forma mais elaborada, por isso, a orientação temporal é rapidamente prejudicada pelas perturbações da consciência.
A Orientação espacial avalia se a pessoa sabe onde se encontra (a instituição, o bairro, a cidade e o país, etc.).
A desorientação ocorre primeiro quanto ao tempo, e só após o agravamento do transtorno é que a pessoa se desorienta quanto ao espaço e a si mesmo.
A atenção é uma função cerebral cujo objetivo consiste em selecionar estímulos existentes no meio circundante com a inibição de estímulos irrelevantes permitindo eliminar elementos distratores para levar a cabo uma ação ou processo mental.
O funcionamento mnésico pode ser classificado de acordo com (i) a relação temporal - curto-prazo vs. longo-prazo (MLP), (ii) o tipo de conteúdo da informação - verbal vs. visual e (iii) os estádios de processamento da informação (codificação, consolidação, armazenamento e recuperação).
Os conceitos de memória e aprendizagem estão intimamente interligados, sendo a memória o resultado da aprendizagem (a aprendizagem é o processo de aquisição de novas informações; a memória refere-se à fixação da aprendizagem de modo a poder reproduzi-la ou evoca-la posteriormente).
Existem dois tipos de MLP: memória Procedimental (implícita) e a memória Declarativa (explicita).
Nas pessoas com deterioração cognitiva encontramos uma alteração na capacidade de aprender informação nova e de recordar informação anteriormente aprendida.
A deterioração da memória nas demências e particularmente na doença de Alzheimer, durante o processo evolutivo da doença é muito extensa, uma vez que a memória recente é afectada. Tanto o processo de fixação como o de consolidação do material produzem o esquecimento, fazendo com que o doente tenha dificuldade em recordar informação recente e em relembrar informação da memória de longo prazo.
Na população em geral, a memória de curto prazo tem um declínio mais pronunciado a partir dos 70 anos, com diferenças mais evidentes entre jovens e idosos (tarefas que requerem muita atenção, flexibilidade mental e processos de reorganização do material). As alterações da memória podem ser explicadas por:
A memória longo prazo diminui na passagem para a idade adulta:
A linguagem é uma das funções cognitivas que se deteriora à medida que as demências evoluem.
Nas demências leves, a linguagem oral é mais afectada que a linguagem escrita, uma vez que a mesma é preservada durante mais tempo ao longo do processo evolutivo da doença.
A alterações da linguagem subdividem-se em:
Materiais e estratégias de otimização:
As habilidades numéricas são consideradas como uma das habilidades instrumentais mais importantes nas sociedades de consumo.
O nível de destruturação das habilidades numéricas e aritméticas apresenta um padrão inverso de todas as outras dimensões cognitivas.
Nas demências leves observam-se alterações de estratégia e processamento de resolução de problemas (cálculo complexo), que se manifestam em situações da vida quotidiana (lidar com dinheiro nas actividades de compra e venda). Os doentes são incapazes de estimar o preço relativo dos objetos, os números perdem o valor simbólico, fazendo com que haja uma alteração no cálculo mental simples e complexo devido a uma alteração na atenção e na concentração.
Materiais e estratégias de otimização:
São alterações no reconhecimento do mundo que nos rodeia, seja pelo estímulo visual (agnosia visual), auditivo (agnosia auditiva), táctil (agnosia táctil), olfactiva (anosmia), alterações no reconhecimento corporal (somatognosia), sem que para tal haja qualquer alteração nos aspectos elementares dos sentidos.
Nas demências leves, uma das primeiras manifestações de agnosias visuais é a dificuldade de reconhecer estímulos visuais complexos e organização espacial dos mesmos.
As funções executivas podem ser definidas como um conjunto de capacidades de planeamento, de autorregulação, de inibição, de flexibilidade, de tomada de decisão e de verificação do comportamento que permitem levar a cabo uma ação eficaz e criativa e socialmente ajustada.